O julgamento no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que analisa a situação do governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), colocou em xeque o acordo político anunciado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL) para as eleições no estado. Aliados do governador afirmam que o cenário jurídico acendeu um alerta e alimentou a desconfiança de que o grupo do senador teria “largado a mão” de Castro, o que pode levá-lo a rever seus próximos passos.

Castro contava com o voto favorável do ministro Antônio Carlos, o que não se confirmou. O magistrado votou pela cassação. Ele é considerado próximo de Kassio Nunes Marques, que, por sua vez, mantém relação política com Flávio Bolsonaro, pré-candidato à presidência.

Outra expectativa frustrada foi em relação ao pedido de vista de Kassio. Castro esperava que o prazo fosse de 30 dias, mas a presidente da Corte, ministra Cármen Lúcia, fixou 15 dias — período aceito por Kassio. O episódio ampliou a desconfiança do governador em relação ao ministro.

Outro indício de que Kassio estaria despertando em Castro a desconfiança de uma traição é a conversa, nos bastidores, de que, caso seja cassado, ele poderia ser substituído pelo secretário da Polícia Civil, Felipe Curi. Curi agregaria à pasta a experiência que ele tem na segurança pública e avaliação positiva na população fluminense a respeito da mega operação no Complexo do Alemão.

Diante desse cenário, uma das possibilidades discutidas nos bastidores é a antecipação da desincompatibilização de Castro, com eventual indicação para o Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ). A manobra lhe garantiria um cargo caso se torne inelegível e abriria espaço na chapa majoritária para outro nome ao Senado.

No sentido oposto, há a hipótese de Castro permanecer no cargo. Nesse caso, o secretário das Cidades, Douglas Ruas, não assumiria um mandato-tampão antes da eleição — etapa considerada estratégica para dar visibilidade à sua eventual candidatura ao governo pelo PL. Interlocutores do governador afirmam que há preocupação de que Ruas priorize a própria campanha e deixe em segundo plano a defesa da atual gestão, o que poderia comprometer o projeto de Castro ao Senado.

O pano de fundo é o julgamento que apura suposto abuso de poder político e econômico. O processo envolve a contratação de funcionários temporários no Centro Estadual de Estatísticas, Pesquisas e Formação de Servidores Públicos do Rio de Janeiro (Ceperj) e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Segundo o Ministério Público Eleitoral, as admissões teriam sido usadas para empregar cabos eleitorais.

O julgamento foi suspenso após pedido de vista de Kassio Nunes Marques. Durante a sessão, Cármen Lúcia informou que o processo retornará à pauta nos dias 24 e 25 deste mês.

Diante do placar desfavorável ao governador, aliados de Castro no PL passaram a articular para que o ministro André Mendonça também peça vista, por até 60 dias. A estratégia seria ampliar o prazo de análise e adiar a retomada da votação para o período em que Kassio assumirá a presidência do TSE, em junho. O plano, no entanto, é apertado. Caso Mendonça utilize os 60 dias a partir de 25 de março, o processo ainda seria devolvido na última semana da gestão de Cármen Lúcia à frente da Corte.